O Brasil precisa de reformas simples mas radicais, se quisermos uma nação mais desenvolvida e mais justa. Elas são simples, pois se trata de retirar certas crendices de nossa cultura social não necessitando para isso de doutores de papel passado ou de complexas equações. Mas elas não são fáceis de serem feitas, pois mudar fundamentos requer um esforço hercúleo e continuado de convencimento.
Tenho dito que estamos construindo o nosso "subdesenvolvimento sustentável". Ele é fundamentado em três crenças: 1) existe alguém ou algo responsável pelo nosso insucesso; 2) existe alguém ou algo que virá nos salvar; 3) existe recurso para tudo, falta apenas vontade política.
Esses três fundamentos acarretam uma cultura a-responsável, ambiente propício para: aproveitadores, demagogos e populistas, na política; "capitalistas" sem risco e rentistas sanguessugas, na economia; espertos em geral, nas relações com o Estado.
Necessitamos mudar isso. Para tanto, devemos ir à raiz do problema e o fio da meada é, necessariamente, a mudança política em seu sentido mais fundamental: nossa cultura política. É preciso ser radical e mudar corações e mentes.
E o primeiro conhecimento a ser democratizado é o da necessidade de identificar e destruir os pilares do nosso subdesenvolvimento sustentável. Novos pilares devem ser erigidos.
Nesse sentido, devemos valorizar mais a palavra. Essa coisa simples foi banalizada pela política, que está desmoralizada pela distância entre a palavra e os atos.
O espírito público (a construção comunitária) deve ser a mãe das relações políticas. A inclusão pessoal deve ser um imperativo categórico e ponto.
Baseados nesses valores precisamos de mudanças em vários níveis. Em relação aos partidos políticos devemos ter mais clareza de posições. A oposição, sobretudo, precisa edificar essas "posições" como valores sociais. É preciso construir uma plataforma de posições, que nos apaixone e compartilhá-la com a população. Para isso é necessário um trabalho exaustivo e duro. A mudança não é para "assumir o poder". O poder é o convencimento da sociedade.
Em nível de Parlamento, sobretudo no federal, devemos aprofundar o entendimento do porquê dos sucessivos escândalos. Não podemos ter um parlamento envergonhado, como é hoje. Nosso principal poder é o do discurso, o do convencimento. Mas para ter esse poder é necessário respeitabilidade e confiança da população. Precisamos recuperar isso com uma profunda redução dos custos e um conjunto mais estrito de valores éticos de comportamento.
Acredito que o Parlamento poderia dar uma contribuição maior à sociedade, construindo os consensos tão necessários ao nosso país. Para tanto, os partidos precisam aclarar suas posições, a pauta do Parlamento deve ser previamente conhecida e os parlamentares precisam consultar suas bases. Acredito também que os parlamentares deveriam ter um papel mais regulador nas suas regiões. Para tanto, o voto circunscricional é fundamental.
Em nível econômico temos insistido em enfrentar os problemas nacionais a partir do Estado, sobretudo a partir de governos. Essa visão, como já disse, castra o protagonismo de nossa gente. A construção do Estado foi muito importante para chegarmos até aqui e ele, o Estado, continuará sendo importante para o Brasil. Mas a tarefa, a partir daqui, tem de ser empreendida com os faróis voltados para o futuro, para o novo. É o que denomino de Plano Real para a nação.
Estou na vida pública com esse propósito. Acredito que essa é a grande batalha a ser travada para livrar-nos das amarras que seguram o nosso desenvolvimento.
Emanuel Fernandes (PSDB-SP) é deputado federal, ex-prefeito de São José dos Campos entre 1997 e 2004