Há expressões que caem em desuso sem motivo aparente. Tenha bons modos é uma delas. Ouvi muito da minha mãe. Não fale de boca cheia, não ponha os pés em cima da mesa, não ria em velório. A cada detalhe sinistro que emerge da tragédia do avião da TAM em Congonhas, duas imagens grotescas não me saem da cabeça. O presidente Lula às gargalhadas com o ministro demitido e o ministro nomeado para a Defesa. E o gesto obsceno do porta-voz do presidente, Marco Aurélio "Top, Top" Garcia, para comemorar os problemas no Airbus que explodiu com quase 200 pessoas a bordo.
A reação de um líder democraticamente eleito, em momentos de luto nacional, diz muito sobre ele e sua equipe. Lula se gaba de ter, com o povão, uma empatia que resiste a todas as adversidades e suspeitas. Suas frases de efeito, suas comparações obsessivas com o futebol e sua linguagem simples e autêntica refletem um estilo. "Se alguns quiserem brincar com a democracia, eles sabem que neste país ninguém sabe colocar mais gente na rua do que eu", disse, desafiando a OAB e a Fiesp, que organizaram um protesto em São Paulo chamado "Cansei". Lula deve estar certo.
Mas, se a mãe do presidente estivesse viva, ela não teria gostado de ver o mais famoso de seus oito filhos rindo uma semana depois do pior acidente aéreo da história da América Latina. Uma tragédia que deixou ao menos mil parentes diretos das vítimas em estado de torpor e consternação pela perda súbita e estúpida.
Dona Lindu morreu em 1980. Se ainda estivesse por aí, teria passado um pito: "Lula, meu filho, tenha bons modos. Honre sua reputação. Seja ex-metalúrgico ou professor da Sorbonne, um presidente da República precisa ter compostura. Deixe a galhofa para o churrasco de domingo na Granja do Torto. Ataque de riso fora de hora e em bando é aceitável quando se é criança e inocente. Seus cabelos já estão brancos, você chegou ao posto mais alto da política por meios legítimos. Se rir e fizer gracinha, o brigadeiro vai dizer que tudo o que entra sai, tudo o que sobe desce, a ministra vai mandar o país relaxar e gozar, o assessor será vulgar e arrogante. Porque o exemplo vem de cima. Inspire-se em estadistas estrangeiros, que não são flagrados rindo no luto ou na troca da guarda. Não precisa chorar. Basta ficar sério. Isso se você quiser que a vaia seja exceção. Falta de instrução não justifica falta de educação. Bote a viola no saco, meu filho".
Artigo publicado na Revista Época