Além das ambigüidades em matéria de política econômica, o governo Lula também é errático em alguns movimentos. Conquistados mais quatro anos de mandato, o presidente colocou na agenda do governo a reforma do sistema previdenciário do INSS e, como manda a cultura assembleísta do PT, instalou um fórum com representantes de sindicatos, empresas e governo para desenhar uma proposta de mudança.
A experiência com esses fóruns já se mostrara negativa no primeiro mandato, quando muito tempo foi perdido na infrutífera discussão em torno de alterações na estrutura sindical e na legislação trabalhista. Este último tema foi engavetado por pressões sindicais. E a outra reforma, a sindical, naufragou, para ir repousar em alguma gaveta do Congresso.
Os prognósticos para a reforma da Previdência também são os piores. Pois, até agora, nada de relevante avançou nas discussões do grupo. Noticia-se que a bancada do governo no fórum está desarticulada. O que era previsível, em função da eclética composição política tecida por Lula na montagem do governo. Se existe o Ministério do Planejamento, mais sensível aos problemas fiscais existentes, entre eles a Previdência, há o Ministério do Trabalho, onde o pedetista Carlos Lupi se encastela para trabalhar contra qualquer reforma.
É sintomático que o fórum da reforma da Previdência não tenha ido além de reformar apenas a maneira como se calcula o déficit do sistema, com o objetivo de escamoteá-lo. Retirar das contas os aposentados rurais e os benefícios de cunho assistencialista não afeta o déficit global do INSS e da assistência social. Reduzir o rombo com artifícios desse tipo pode servir para sustentar discursos políticos, mas não resolve o grave problema fiscal do país.
Mantém-se inamovível o fato de que o Brasil, país em que as pessoas se aposentam cedo demais, gasta 11,7% do PIB com todo tipo de benefício previdenciário, no INSS e no setor público, índice igual ao de países desenvolvidos com uma população idosa correspondente ao dobro da nossa. E como as despesas com a Previdência continuam a crescer mais que o PIB, o país está na rota de uma crise fiscal. Queiram ou não o fórum e o governo.