O presidente Lula adotou o bordão desde o ano inicial do primeiro mandato. Para exaltar-se no papel de chefe da nação e marcar cada feito que define como um sucesso, repete: "Nunca antes na História do país". E saca o argumento que o enobrece: a economia evoluiu tanto, o brasileiro aumentou a renda, o emprego cresceu, aplicou-se em universidades, elevou-se o padrão de consumo, o mundo curvou-se ao Brasil. E por aí afora. Serve para tudo.
E tanto que, ontem, o autor do intróito glorioso reconheceu que anda abusando da comparação. Sem abrir mão do excesso retórico, é claro. "Está uma coisa tão repetitiva esse negócio de pela primeira vez, nunca antes, nunca dantes", afirmou, arrancando gargalhadas da platéia. "Mas é verdade". E, sem corar, insistiu. "Nunca antes a sociedade brasileira teve participação na elaboração de proposta de política pública como nos quatro anos e meio de nosso governo".
Nunca antes na História o Brasil teve um presidente que se vangloriasse em tal proporção. E olha que já teve comandantes que decretaram o fim da monarquia e instauraram a República, que se tornaram ditadores mas deixaram como herança leis trabalhistas válidas até hoje. Presidente que ousou transferir a capital federal da orla para o cerrado e levantar uma cidade para abrigar o poder. Teve aquele que ousou assinar um plano que derrubou a inflação, e outro, que o sucedeu, e manteve a moeda sem grandes sustos ou percalços.
Agora tem Lula. Que se autodefine como o maior de todos. Ou abusa do exagero para não passar incólume pela galeria da História. Como jamais passaria. Afinal, pela primeira vez na História do país, o presidente é um retirante nordestino, metalúrgico e líder sindical, fundador de partido e político com alta popularidade e credibilidade, especialmente entre as camadas mais pobres da população.
O excesso raramente produz o efeito pretendido. Transforma-se em motivo de piada e ironia. Tudo que um presidente, eleito para cumprir as missões de chefe de Estado e de governo, não precisa. O reconhecimento da História não é auto-imposto. Nem se faz por medida provisória, projeto-de-lei ou decreto.
A comparação sobre realizações, números e metas entre os vários governos republicanos democraticamente eleitos não cabe a quem exerce o poder. A este, fica o dever de fazer o melhor para atender a sociedade, travar os ralos da corrupção, elevar os indicadores sociais e econômicos, reduzir a distância entre ricos e pobres, gerar empregos, produzir renda, fortalecer e ampliar a infra- estrutura e uma centena de outras tarefas. É óbvio que, ao fim do mandato, todo governante considere-se melhor que o anterior.
O registro e a sentença definitiva caberá, primeiro, aos eleitores, num futuro próximo ou mais distante. E aos historiadores, ainda mais adiante. O ineditismo de uma decisão, plano, projeto ou programa não está no seu anúncio ou intenção. Mas no resultado prático e na melhoria da qualidade de vida da população. O "nunca antes" só vale a pena se vier acompanhado de "o melhor depois".
De qualquer forma, vale mais um registro. Nunca antes no país um presidente anunciou, com antecedência de três anos, que vai se licenciar do cargo para subir em palanques na campanha de sua sucessão. Jamais algum mostrou tão aguerrido empenho por um candidato (nem se sabe quem será). Se vai realmente e, se a empreitada será vitoriosa, os livros históricos irão registrar. E teses acadêmicas irão avaliar
Fonte: Jornal do Brasil